Reuso da água em residências

 

Por Mário Hermes Stanziona Viggiano

Arquiteto sistêmico

 

Muito se tem discutido sobre as questões que envolvem uma possível escassez de água doce no planeta. No Brasil, que conta com uma das maiores reservas desta água, são feitas inúmeras campanhas que abordam quase que exclusivamente a postura da economia. No entanto, o gerenciamento das águas ao nível do consumidor pode e deve ser tratado de uma maneira mais abrangente adotando-se uma prática que denominamos normalmente de reuso.

O reuso consiste na utilização da água mais de uma vez partindo do princípio básico de sempre reutilizar esta água com a qualidade mínima requeridas pelos padrões e normas sanitárias.

Quando falamos de gerenciamento de águas nos referimos a maneira como as águas fornecidas pelos concessionários devem ser distribuídas e utilizadas nas residências. Hoje cometemos o grande absurdo de utilizar a água potável, que nos é vendida a uma preço considerável, nos vasos sanitários, na lavagem de calçadas, na lavagem de automóveis e na irrigação dos jardins, usos considerados menos nobres e que poderiam perfeitamente estar sendo supridos com uma água com qualidade mas não necessariamente potável. Aliás, a própria ABNT(Associação Brasileira de Normas Técnicas), na norma NBR 13969, ressalta a possibilidade do reuso quando afirma que “o esgoto tratado deve ser reutilizado para fins que exigem qualidade de água não potável mas sanitariamente segura”.

Ao concessionário fornecedor de água tratada não se pode impor a obrigatoriedade de se colocar a disposição dos consumidores uma água não potável para o uso em lavagens e irrigação. Isto seria um absurdo sob vários aspectos a começar pela necessidade de uma rede pública exclusiva, passando pelo grande ônus da manutenção e culminando com o grande risco da má utilização desta água nos pontos finais de consumo.

A opção para a utilização de água de qualidade não potável que se apresenta viável e que nos parece a mais lógica, é se fazer a gestão do reuso nas próprias residências. Hoje já dispomos de recursos tecnológicos ao nível de equipamentos para que esta prática se realize na maioria das residências brasileiras.

As águas provenientes do esgoto doméstico, também chamadas de águas servidas, podem ser classificadas genericamente em águas cinzas e águas negras. As águas cinzas são aquelas provenientes das lavagens de roupa, chuveiro, ralos e pia de banheiro e compõem o chamado esgoto secundário. As águas negras são aquelas provenientes do vaso sanitário e das pias de cozinha que contenham gordura e são as componentes do esgoto primário.

O tratamento das diversas águas pode ser feito em separado ou conjuntamente. Os equipamentos desenvolvidos pelas empresas Rotogine e Mizumo cumprem igualmente a função de tratar todas as águas servidas dos esgotos primário e secundário, não sendo necessária uma separação prévia.

A tecnologia proposta pela Rotogine, trazida de sua matriz francesa, se utiliza dos chamados Septodifusores, que são caixas com aletas plásticas que cumprem a função aeróbica do sistema. O tratamento se completa com os tanques sépticos, filtros anaeróbicos e filtragem com areia.

As estações de tratamento fornecidas pela Mizumo apresentam-se como equipamentos monoblocos onde as funções de tanque séptico, reator anaeróbico, reator aeróbico, decantação, lodo ativado e esterilização são executadas de forma seqüencial.

As duas tecnologias fornecem ao final, uma água com qualidade mínima para o reuso em irrigação e lavagens em geral que não necessitem de contato manual constante.

Quando se tem a oportunidade de separação das águas pode-se fazer a opção de se tratar somente as águas cinzas. Este tratamento se apresenta como uma opção bem mais econômica pois o tratamento é simplificado devido a não ocorrência das gorduras e da matéria orgânica. Sistemas para o tratamento do esgoto secundário podem ser montados a partir de câmaras de retenção de sabão e filtros de areia bem dimensionados para a vazão requerida.

Em se tratando de reuso, alguns destes sistemas de tratamento disponíveis no mercado podem apresentar um payback (retorno do investimento), variando de 3 a 6 anos, dependendo das variantes de consumo e custo local da água. Para o reuso exclusivo das águas cinzas este payback pode chegar a 1,5 anos o que se configura um excelente incentivo de investimento para quem deseja estar conectado com a tendência global de construir de forma responsável e sustentável.