Arquiteto sistêmico
As campanhas de combate ao
desperdício da água para o uso humano comumente feitas no Brasil, abordam quase
que exclusivamente a questão da economia. É sabido no entanto que não basta só
reduzir o consumo de água já tratada sem se fazer uma gestão completa do ciclo
das águas que envolva, necessariamente, a preservação dos mananciais e também o
reuso.
O reuso consiste na utilização da água
mais de uma vez partindo do princípio básico de sempre reutilizar esta água com
a qualidade mínima requeridas pelos padrões e normas sanitárias.
As águas servidas são as águas
que já foram usadas nas atividades humanas e podem ser classificadas como águas
negras e águas cinzas (figura 1). As águas negras são aquelas
provenientes do vaso sanitário e da pia de cozinha, ou seja, águas ricas em
matéria orgânica e bactérias com potencial patogênico.
As águas cinzas são aquelas
provenientes do chuveiro, banheira, lavatório de banheiro e máquina de lavar
roupas. Estas águas são ricas em sabões, sólidos suspensos e matéria orgânica
(cabelos, sangue e sêmen) e podem possuir pequenas quantidades de bactérias.
O Brasil ainda é carente de normas e
diretrizes que definam plenamente os conceitos, parâmetros e restrições ao
reuso das águas servidas a nível residencial, comercial e industrial. No
entanto, podemos extrair alguns parâmetros das normas fornecidas pela ABNT (Associação Brasileira de Normas
Técnicas). A NBR 13969 de 1997 no item que trata do reuso local, afirma que:
“No caso do esgoto de origem essencialmente doméstica ou com características
similares, o esgoto tratado deve ser reutilizado para fins que exigem qualidade
de água não potável, mas sanitariamente segura, tais como irrigação dos jardins,
lavagem dos pios e dos veículos automotivos, na descarga dos vasos sanitários,
na manutenção paisagística dos lagos e canais com água, na irrigação dos campos
agrícolas e pastagens etc.” 1. A mesma norma, chega a montar uma
classificação para o reuso baseado na qualidade requerida:
|
Classe |
Uso previsto |
Turbidez |
Coliformes Fecais |
Sólidos dissolvidos totais |
pH |
Cloro residual |
|
CLASSE
1 |
Lavagem
de carros e outros usos que requerem contato direto do usuário com a água |
Inferior
a 5 |
Inferior
a 200 NMP/100 ml |
Inferior
a 200 mg/L |
Entre
6 e 8 |
Entre
0,5 mg/l e 1,5 mg/l |
|
CLASSE
2 |
Lavagem
de pisos, calçadas e irrigação dos jardins, manutenção dos lagos e canais
para fins paisagísticos, exceto chafarizes |
Inferior
a 5 |
Inferior
a 500 NMP/100 ml |
- |
- |
Superior
a 0,5 mg/L |
|
CLASSE
3 |
Reuso
em descargas dos vasos sanitários |
Inferior
a 10 |
Inferior
a 500 NMP/100 ml |
- |
- |
- |
|
CLASSE
4 |
Reuso
nos pomares, cereais, forragens, pastagens para gados e outros cultivos |
- |
Inferior
a 5000 NMP/100mL |
- |
- |
- |
Tabela
1 – Classificação e reusos previstos – fonte: ABNT norma 13969/1997
Devido as suas características físicas,
as águas cinzas são aquelas que mais se prestam ao reuso em residências. Isto
se dá pelo fato de que, tendo índices muito menores de matéria orgânica e
bactérias, estas águas são tratadas com maior facilidade e conseqüentemente, o
retorno do investimento aplicado nos equipamentos do sistema virá em tempo
consideravelmente menor.
As águas cinzas podem ser usadas nas
residências a partir de dois processos distintos que variam basicamente pelo
nível de complexidade do tratamento. Se usadas na irrigação exclusivamente por
infiltração subterrânea, estas águas não necessitam de praticamente nenhum
tratamento específico, devendo ser retidos apenas os sólidos suspensos,
armazenada de forma correta e bombeada para a irrigação (figura 2).
Se usada na irrigação superficial,
retorno ao vaso sanitário ou lavagens de pátios, as águas cinzas de reuso devem
ser necessariamente tratadas. Este tratamento envolve basicamente filtragem,
retirada de odores e esterilização (figura 3). Na irrigação superficial
recomenda-se não usar a aspersão por spray mas sim o gotejamento e nas
lavagens, tomar o cuidado de jamais irrigar áreas que possam ter o contato
humano tais como calçadas internas, playground, dormitórios, cozinhas e
refeitórios, dando preferência para as lavagens de garagens e acesso de
automóveis.
Pode-se considerar que a perspectiva de
reaproveitamento das águas cinzas é uma novidade a nível mundial. Vários países
processam estudos sistemáticos sobre o assunto mas poucos são os que já possuem
uma legislação com aplicações práticas pela população. No Japão, mais
especificamente na cidade de Tóquio, o reuso é obrigatório para prédios com
mais de 30.000 metros quadrados ou com potencial de reuso de 100 metros cúbicos
por dia. 2
Os Estados Unidos possuem uma vasta
rede de informação sobre reuso das águas cinzas, tendo a matéria sido
normalizada em vários estados. Em geral, as normas americanas direcionam o
aproveitamento das águas cinzas prioritariamente para a irrigação subterrânea.
No entanto, a utilização em irrigação superficial, retorno aos vasos sanitários
e em lavagens é permitido em alguns casos a partir da aprovação de projeto em
que são comprovadas as capacidades de tratamento do sistema utilizado. Em geral
as diretrizes para o reuso das águas cinzas nos Estados Unidos seguem normas
genéricas como as publicadas pelo Departamento de Qualidade Ambiental do Estado
de Arizona (The Arizona Department of Environmental Quality – ADEQ) 3
que afirma que as águas cinzas podem ser reutilizadas desde que:
No Brasil, o LabCau (Laboratório
Casa Autônoma de Arquitetura Sustentável) mantém uma pesquisa sistemática sobre
o reuso das águas cinzas com o aprimoramento de sistemas que possibilitem a
utilização das águas para fins não potáveis como irrigação, lavagens e retorno
aos vasos sanitários. Diversos sistemas estão sendo pesquisados com o intuito
de atender alguns setores da sociedade que possam vir a se utilizar dos
processos tais como as lavanderias, lava-autos, postos de gasolina e
condomínios. Em residências, a pesquisa tem apontado no sentido de se fazer um
processo múltiplo de filtragens que contemple diversas gramaturas e texturas de
meios filtrantes. O processo de filtragem se completa com a retirada de parte
dos odores através do carvão ativado e com a esterilização a partir do cloro ou
raios ultravioleta (figura 4).
O reuso das águas cinzas ao nível local
da residência, atende a dois preceitos básicos da área de saneamento: na medida
em que favorece a possibilidade de redução da pressão de demanda por água
potável nas grandes cidades, proporciona uma real economia financeira ao
usuário que, em se tratando de sistemas exclusivos de reuso das águas cinzas,
podem alcançar um payback (retorno do investimento) de até dois anos.
Referências
1.
ABNT, Associação Brasileira de Normas Técnicas, Norma NBR 13969 – Tanques
sépticos – Unidades de tratamento complementar e disposição final dos efluentes
líquidos – Projeto, construção e operação, Setembro de 1997.
2. CSBE
– Center for the Study of the Built Environment - Graywater reuse project - citado em www.csbe.org/GRAYWATER.
3.
Little, Val l. - Graywater Guidelines – The Water Conservation Alliance of
Southern Arizona – disponível em www.watercasa.org/pubs/Graywater%20Guidelines.pdf.
Serviço:
LabCau – Laboratório Casa Autônoma de
Arquitetura Sustentável
SMPW quadra 16, conjunto 5, lote 5,
casa E – CEP 71745-060
Brasília – DF – fone: (61) 99880576