Reuso das águas cinzas

 

Por Mário Hermes Stanziona Viggiano

Arquiteto sistêmico

 

 

As campanhas de combate ao desperdício da água para o uso humano comumente feitas no Brasil, abordam quase que exclusivamente a questão da economia. É sabido no entanto que não basta só reduzir o consumo de água já tratada sem se fazer uma gestão completa do ciclo das águas que envolva, necessariamente, a preservação dos mananciais e também o reuso.

O reuso consiste na utilização da água mais de uma vez partindo do princípio básico de sempre reutilizar esta água com a qualidade mínima requeridas pelos padrões e normas sanitárias.

As águas servidas são as águas que já foram usadas nas atividades humanas e podem ser classificadas como águas negras e águas cinzas (figura 1). As águas negras são aquelas provenientes do vaso sanitário e da pia de cozinha, ou seja, águas ricas em matéria orgânica e bactérias com potencial patogênico.

As águas cinzas são aquelas provenientes do chuveiro, banheira, lavatório de banheiro e máquina de lavar roupas. Estas águas são ricas em sabões, sólidos suspensos e matéria orgânica (cabelos, sangue e sêmen) e podem possuir pequenas quantidades de bactérias.

O Brasil ainda é carente de normas e diretrizes que definam plenamente os conceitos, parâmetros e restrições ao reuso das águas servidas a nível residencial, comercial e industrial. No entanto, podemos extrair alguns parâmetros das normas fornecidas pela  ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas). A NBR 13969 de 1997 no item que trata do reuso local, afirma que: “No caso do esgoto de origem essencialmente doméstica ou com características similares, o esgoto tratado deve ser reutilizado para fins que exigem qualidade de água não potável, mas sanitariamente segura, tais como irrigação dos jardins, lavagem dos pios e dos veículos automotivos, na descarga dos vasos sanitários, na manutenção paisagística dos lagos e canais com água, na irrigação dos campos agrícolas e pastagens etc.” 1. A mesma norma, chega a montar uma classificação para o reuso baseado na qualidade requerida:

 

 

 

 

 

 

 

Classe

Uso previsto

Turbidez

Coliformes Fecais

Sólidos dissolvidos totais

pH

Cloro residual

CLASSE 1

Lavagem de carros e outros usos que requerem contato direto do usuário com a água

Inferior a 5

Inferior a 200 NMP/100 ml

Inferior a 200 mg/L

Entre 6 e 8

Entre 0,5 mg/l e 1,5 mg/l

CLASSE 2

Lavagem de pisos, calçadas e irrigação dos jardins, manutenção dos lagos e canais para fins paisagísticos, exceto chafarizes

Inferior a 5

Inferior a 500 NMP/100 ml

-

-

Superior a 0,5 mg/L

CLASSE 3

Reuso em descargas dos vasos sanitários

Inferior a 10

Inferior a 500 NMP/100 ml

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CLASSE 4

Reuso nos pomares, cereais, forragens, pastagens para gados e outros cultivos

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Inferior a 5000 NMP/100mL

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Tabela 1 – Classificação e reusos previstos – fonte: ABNT norma 13969/1997

 

Devido as suas características físicas, as águas cinzas são aquelas que mais se prestam ao reuso em residências. Isto se dá pelo fato de que, tendo índices muito menores de matéria orgânica e bactérias, estas águas são tratadas com maior facilidade e conseqüentemente, o retorno do investimento aplicado nos equipamentos do sistema virá em tempo consideravelmente menor.

As águas cinzas podem ser usadas nas residências a partir de dois processos distintos que variam basicamente pelo nível de complexidade do tratamento. Se usadas na irrigação exclusivamente por infiltração subterrânea, estas águas não necessitam de praticamente nenhum tratamento específico, devendo ser retidos apenas os sólidos suspensos, armazenada de forma correta e bombeada para a irrigação (figura 2).

Se usada na irrigação superficial, retorno ao vaso sanitário ou lavagens de pátios, as águas cinzas de reuso devem ser necessariamente tratadas. Este tratamento envolve basicamente filtragem, retirada de odores e esterilização (figura 3). Na irrigação superficial recomenda-se não usar a aspersão por spray mas sim o gotejamento e nas lavagens, tomar o cuidado de jamais irrigar áreas que possam ter o contato humano tais como calçadas internas, playground, dormitórios, cozinhas e refeitórios, dando preferência para as lavagens de garagens e acesso de automóveis.

Pode-se considerar que a perspectiva de reaproveitamento das águas cinzas é uma novidade a nível mundial. Vários países processam estudos sistemáticos sobre o assunto mas poucos são os que já possuem uma legislação com aplicações práticas pela população. No Japão, mais especificamente na cidade de Tóquio, o reuso é obrigatório para prédios com mais de 30.000 metros quadrados ou com potencial de reuso de 100 metros cúbicos por dia. 2

Os Estados Unidos possuem uma vasta rede de informação sobre reuso das águas cinzas, tendo a matéria sido normalizada em vários estados. Em geral, as normas americanas direcionam o aproveitamento das águas cinzas prioritariamente para a irrigação subterrânea. No entanto, a utilização em irrigação superficial, retorno aos vasos sanitários e em lavagens é permitido em alguns casos a partir da aprovação de projeto em que são comprovadas as capacidades de tratamento do sistema utilizado. Em geral as diretrizes para o reuso das águas cinzas nos Estados Unidos seguem normas genéricas como as publicadas pelo Departamento de Qualidade Ambiental do Estado de Arizona (The Arizona Department of Environmental Quality – ADEQ) 3 que afirma que as águas cinzas podem ser reutilizadas desde que:

No Brasil, o LabCau (Laboratório Casa Autônoma de Arquitetura Sustentável) mantém uma pesquisa sistemática sobre o reuso das águas cinzas com o aprimoramento de sistemas que possibilitem a utilização das águas para fins não potáveis como irrigação, lavagens e retorno aos vasos sanitários. Diversos sistemas estão sendo pesquisados com o intuito de atender alguns setores da sociedade que possam vir a se utilizar dos processos tais como as lavanderias, lava-autos, postos de gasolina e condomínios. Em residências, a pesquisa tem apontado no sentido de se fazer um processo múltiplo de filtragens que contemple diversas gramaturas e texturas de meios filtrantes. O processo de filtragem se completa com a retirada de parte dos odores através do carvão ativado e com a esterilização a partir do cloro ou raios ultravioleta (figura 4).

O reuso das águas cinzas ao nível local da residência, atende a dois preceitos básicos da área de saneamento: na medida em que favorece a possibilidade de redução da pressão de demanda por água potável nas grandes cidades, proporciona uma real economia financeira ao usuário que, em se tratando de sistemas exclusivos de reuso das águas cinzas, podem alcançar um payback (retorno do investimento) de até dois anos.

 

Referências

1.  ABNT, Associação Brasileira de Normas Técnicas, Norma NBR 13969 – Tanques sépticos – Unidades de tratamento complementar e disposição final dos efluentes líquidos – Projeto, construção e operação, Setembro de 1997.

2. CSBE – Center for the Study of the Built Environment -  Graywater reuse project  - citado em www.csbe.org/GRAYWATER.

3. Little, Val l. - Graywater Guidelines – The Water Conservation Alliance of Southern Arizona – disponível em www.watercasa.org/pubs/Graywater%20Guidelines.pdf.

 

Serviço:

LabCau – Laboratório Casa Autônoma de Arquitetura Sustentável

SMPW quadra 16, conjunto 5, lote 5, casa E – CEP 71745-060

Brasília – DF – fone: (61) 99880576

www.casaautonoma.com.br

labcau@casaautonoma.com.br